O presente artigo pode ser consultado aqui na Revista do CFAE MINERVA – n.º 1.
É a minha primeira tentativa de escrita com o novo acordo ortográfico e na versão original escaparam alguns “c”…
A oferta formativa no âmbito da Certificação de Competências Pedagógicas com as TIC (Nível 2) prevê o desenvolvimento da ação intitulada “Ensino e Aprendizagem com TIC na Educação Pré-Escolar e no 1.º Ciclo do Ensino Básico”, com 15 horas de duração. À entrada neste curso, as formandas e os formandos esperam melhorar os seus conhecimentos na utilização das TIC, contudo, tal como acontece em muitas das nossas salas de aula, cada docente traz consigo experiências e competências próprias, atribuindo a cada turma caraterísticas fortemente heterogéneas. Assim, cada curso segue a orientação prevista a nível nacional mas tenta atender à especificidade dos docentes e aos seus desejos de aprendizagem.
As expetativas de aprendizagem dos docentes podem variar: desde a vontade de saber utilizar as ferramentas mais comuns do Microsoft Office (Excel e PowerPoint), passando pela necessidade de saber como administrar um blogue, até ao desejo de conhecer formas inovadoras de trabalhar com as TIC na geração da web 2.0. Pelos relatos, continuamos com bastantes Jardins de Infância sem Internet e Escolas do 1.º Ciclo sem ligação à rede sem fios, muitos dos Magalhães dos alunos e alunas já não funcionam devidamente, o que torna a falta de recursos materiais como uma das razões apontadas pelos docentes para não conseguir integrar, do modo desejado, as TIC na sala de aula. Além disso, a falta de formação também surge como argumento para uma utilização incipiente da tecnologia.
A larga maioria dos participantes na formação utiliza as TIC para colaborar com colegas, domina uma ferramenta de correio electrónico e sabe usar o processador de texto de modo satisfatório. Porém, não conhece nem domina ferramentas colaborativas e de partilha selectiva de conteúdos e ficheiros, não sabe como postar num blogue nem pesquisar na Internet noutras línguas para além do português. Muitos desconhecem como se faz uma atualização de um programa informático, fazendo supor que os computadores que utilizam têm antivírus desatualizados.
É neste cenário heterogéneo que a formação se desenvolve. A grande diversidade de competências de uma turma deve ser utilizada do mesmo modo que numa sala das nossas salas de aula: cada pessoa é chamada a partilhar as suas experiências e saberes com o grupo ou mesmo apoiar os colegas na manipulação de determinadas ferramentas. Cada professor ou educador aprende muito mais se tiver de transmitir aos colegas o que sabe e conhece. Estrutura o pensamento e pode ter de responder a dúvidas que até ao momento desconhecia. Do ponto de vista dos formandos, a falta de recursos na escola e a falta de formação, impedem uma “entrada” regular das TIC nas aulas. Contudo, apesar da validade dos argumentos, nenhum deve condicionar verdadeiramente a integração da tecnologia nas práticas lectivas. Essa integração implica a utilização habitual e regular da TIC pelos alunos e alunas, numa dinâmica de trabalho activa e real. É, pois, imprescindível desenvolver frequentemente trabalhos de projeto que encaminhem as crianças para aprendizagens reais e significativas, estimulando o raciocínio e a capacidade de aplicar o conhecimento adquirido a novas situações.
A formação necessária ao “professor tecnológico”, que utiliza com regularidade as TIC é, sobretudo, de caráter pedagógico, mais do que de caráter técnico. O professor, recorrendo às ferramentas mais básicas, pode levar a cabo projetos importantes para o desenvolvimento de competências. Ao mesmo tempo, pode ensinar a manipular ferramentas de desenho e imagem, processar texto e a apresentar trabalhos em formato multimédia. Numa fase em que alunas e alunos são curiosos por natureza, sabem aceder à Internet para jogar e procurar recursos na rede, à que motivá-los para a descoberta das ferramentas que proporcionam construir aprendizagens formais. Se lhes for oferecido espaço e tempo, será natural que tragam para a sala de aula novos conhecimentos e os transmitam aos colegas, mas também aos professores.
Alguns docentes desconhecem que já deram o derradeiro passo na integração das TIC: levam o seu “público” a utilizar com alguma frequência o computador, sobretudo para escrita de texto e exploração de alguns recursos educativos digitais. Porém, não partilham com os colegas de trabalho as suas “conquistas”. Muitas vezes não existe um espaço e um tempo para esta troca de experiências. A burocracia e exigência das funções do titular de turma tomam demasiado tempo e o verdadeiro trabalho pedagógico entre pares fica para trás. As infindáveis reuniões, centradas na troca de informação e discussões vazias de conteúdo não promovem a partilha de materiais. As plataformas colaborativas das escolas nem sempre são usadas para o envio de informações antes dos conselhos de docentes. O simples revisor de texto do Microsoft Word é desaproveitado, pois pode ser uma excelente ferramenta para a revisão e aprovação de atas.
É importante que as lideranças encabecem a mudança, exigindo que a “competição” saudável entre docentes da mesma escola ou agrupamento ganhe uma dinâmica útil. Os profissionais com utilização incipiente das TIC, que se vejam “obrigados” a atualizar os conhecimentos, devem poder apoiar-se nos colegas mais experientes para trazer a tecnologia para a sala de aula. Quanto maior for o investimento e frequência de uso da tecnologia, maior será o conhecimento das ferramentas, logo, mais fácil será utilizá-la na sala de aula e os problemas serão cada vez mais fáceis de ultrapassar.
No atual enquadramento e duração, a formação em TIC para docentes da Educação Pré-Escolar e do 1.º Ciclo do Ensino Básico tem de ser vista apenas como um “motor de arranque”. Caberá a cada escola e a cada docente desenvolver estratégias complementares para, progressivamente, utilizar mais e melhor as ferramentas tecnológicas disponíveis.